Lago Titikaka: ilha Taquile!!

Seguindo nosso passeio pelo Lago Titicaca, depois de cerca de 2.30h, chegamos a Ilha Taquile. Esse percurso é uma delícia, e nesta hora o sol já tinha aparecido e o lago resplandecia. Difícil dizer que não era um mar...
 

Azul nos dias ensolarados e cinza nos nublados, segundo a mitologia local, no Lago Titicaca o mundo se originou. Contam que há muito tempo atrás uma comunidade vivia feliz em um vale dos Andes, pois os deuses das montanhas, denominados Apus, a protegia, com a condição de que ninguém subisse os montes, onde ardia o Fogo Sagrado. Um dia, os espíritos malignos resolveram semear a discórdia, desafiando os habitantes a alcançarem o alto das montanhas como prova de sua coragem. Claro, eles subiram, e os Apus ficaram contrariados com a desobediência. Assim soltaram vários pumas, que viviam nas cavernas locais, e exterminaram toda a população. Diante desta desgraça, o Deus Sol Inti chorou por 40 dias e suas lágrimas inundaram o vale. De suas lágrimas surgiu um homem, Manco Cápac, e sua mulher, Mama Ocllo. Ao saírem das águas, eles transformaram os pumas em estátuas de pedra e chamaram o lago recém-formado de Titicaca (em quechua, "o lago dos pumas de pedra"). Manco e sua esposa receberam de Inti a incumbência de fundar o Império de Tawantisuyo, e assim surgiu a Civilização Inca.
O casal viveu uns tempos na Ilha Taquile, onde Mama ensinou às mulheres a fazerem fios e Manco Capac ensinou aos homens a agricultura e a tecelagem. Eles orientaram os habitantes a nunca permitirem que os conhecimentos de tecelagem deixassem a ilha. Portanto, até hoje os homens tecem na ilha, contudo as mulheres já sejam permitidas a fazê-lo.
A tecelagem na ilha é mais do que uma forma de subsistência, pois são a partir das intricadas figuras que imprimem nos tecidos que, desde criança, os taquilenhos aprendem a mitogia que rege a comunidade local.

Eles aprendem a fazer chullos (gorros de lã), t´isnus (cintas também de lã) e fajas (cinturões com desenhos complexos). Os homens que não sabem tecer são chamados de muruqu maki, que na língua quechua (utilizada na ilha até hoje) significa “mão redonda”, mas passa o sentido de” indivíduo  inútil”. E, isso lá é coisa séria, esses muruqu makis não conseguem nem se casar.
A ilha foi uma prisão durante a colonização espanhola, e até meados do séc. XX. Ela somente se tornou independente em 1970. Hoje, seus mais de 3.000 habitantes vivem da agricultura, da pesca e do artesanato. Em Taquile, não há eletricidade, nem carros, nem cães e gatos.
Famosa por suas ruínas da era Pré-Inca, vistas no topo da ilha (a vila principal fica à 3.950m), por seus rituais e pelo povo caloroso, a visita à ilha é inesquecível.
Uma curiosidade nela são as vestimentas e seus códigos, relacionados à idade, estado civil, status social e estado de espírito de quem as traja. Os homens utilizam calças pretas, camisas brancas e chullos com bordados multicoloridos. As mulheres casadas usam blusas de cores vivas e polleras (volumosas saias) com um manto negro. Os líderes comunitários trajam chullos coloridos cobertos por belos chapéus. E o mais curioso, quando um homem está de bom humor, coloca a ponta de seu chullo sobre o ombro direito e vice-versa.


A ilha possui muitas tradições curiosas, por exemplo: os casais são obrigados a viverem juntos por um período de dois anos, para ver se o casamento vai funcionar, já que divórcio é um conceito que não existe por lá. Neste período de experimentação, os casais não podem ter filhos.
O conceito de cooperação mútua é levado muito a sério pelos taquilenhos, e as famílias se revezam semanalmente para atenderem ao restaurante comunitário. Ademais, o artesanato é vendido em um lugar comunitário no topo da ilha... nada de concorrência entre os taquilenhos. Lá, não existe polícia e os infratores são linchados em lugares públicos, contudo isso não seja comum. Seu povo ainda segue rigorosamente os mandamentos Incas: Ama Sua, ama llulla, ama qhilla (não roubar, não mentir, não ser preguiçoso). As tradições são mantidas e, mulheres caminham atrás dos homens, não podem se manifestar nas reuniões comunitárias, e são seus homens responsáveis que resolvem as questões quando estas se desentendem.
Taquile é considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Belíssima... não  sei porque me lembrou a Grécia. No passeio, nós fomos deixados às margens do lago em um lado da ilha. Daqui, há duas opções: subir por escadas, ou caminhar entre flores, cultivos e criações dos locais. Optamos pela caminhada íngreme que dura cerca de 1 hora, mas é de uma beleza ímpar.
O caminho de subida
Os taquilenhos criam ovelhas, carneiros, galinhas e cuy
Modelo de terrazas Inca
O colorido plantio de papa (=batata)
Tetos de zinco vermelhos
Quase no topo paramos para o almoço em uma tenda. Almoçamos uma deliciosa sopa de quinoa, seguida de trutas com papas fritas. Após o almoço, tivemos uma demonstração da dança local e visitamos a tecelagem.
A dança folclórica no restaurante
 
Eles cultivam muitas ervas, inclusive esta, a Muña, que é usada para doenças do estômago. Todavia a Coca vem de Cusco
Cheirando a erva para escapar do "mal das alturas" e encarar mais subida depois
do almoço

Daqui, nossa caminhada seguiu até o topo da ilha, onde fica a praça e a igrejinha. No alto, pudemos avistar os dois picos da vizinha Ilha Amantaní , o Pachatata (Pai Terra) e o Pachamama (Mãe Terra).
 
 
Cantuta, a flor nacional do Peru
Portal de acesso a praça central
 
 
Mirante no topo da ilha
A praça central
 
Até os bebês usam as roupas típicas
Como o embarque se dá na outra ponta da ilha, agora descemos os 538 degraus de pedra até o porto. Foi à parte que mais gostei do passeio.

O infinito Lago Titikaka
 
 
 
 
 
O fundo do lago
Fim do passeio, de volta a nossa lancha, curtimos muito o sol da tarde nas cerca de 3h de retorno a Puno.

SUPER INDICO esse passeio.
Veja mais aqui
 
O passeio pelo Titicaca que acabei de relatar nestes 2 posts  começa no porto de Puno às 7.30h (uma van nos pegou no hotel) e dura 8 horas. O custo é de cerca de US$ 8 por pessoa.  As agências locais também oferecem a possibilidade de pernoite nas ilhas por cerca de US$ 15, incluindo acomodação e alimentação.
É possível, ainda, ir até a Bolívia e conhecer Copacabana e a Ilha do Sol, o que não fizemos, mas deve ser muito legal.
Conselho: se for ao Peru, não deixem o Titicaca de fora. Puno e seus arredores têm muito a oferecer.

Até breve!



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