Lembranças de um triste e conflituoso passado em Berlim: a Guerra Fria e a Queda do Muro de Berlim



Nos posts de domingo passado, falamos sobre os efeitos, marcas e legado da Alemanha Nazista e da Segunda Guerra Mundial, em Berlim. Apresentamos roteiros para se seguir as marcas do Terceiro Reich e da Guerra na capital da Alemanha. Hoje, o post se dedicara a Guerra Fria e a vida àquela época em Berlim. Veremos abaixo as atrações que focam neste tema.


Berlim e a Guerra Fria

No dia 8 de maio de 1945, a Alemanha Nazista se rendeu incondicionalmente. Nove semanas depois, em 17 de julho, tem inicio a Conferência de Potsdam, onde os lideres das nações vitoriosas (Stalim, Churchill e Harry Truman) se reuniram e “dividiram” entre si parte do mundo. Em janeiro de 1946, o Conselho de Controlo Aliado dividiu a Alemanha em 4 zonas de ocupação controladas por Estados Unidos, União Soviética, Reino Unido e França. Nesse momento, surgiu as “duas Berlins”, que por sua vez é a “fronteira” que separa dois mundos: o Bloco do Leste capitalista (também chamado de Pacto de Varsóvia) e o lado Ocidental ou “Cortina de Ferro” comunista, que incluía Polônia, Hungria, Checoslováquia, Romênia, Bulgária e Albânia (até meados dos anos 60). Estes países/governos ocuparam a Alemanha de 1945 até 48. Mas, a URSS continuou indiretamente dominando o Leste.


A divisão da Alemanha no pós-guerra


Com o crescimento econômico da Alemanha Ocidental, a partir de 1950, o padrão de vida no país foi melhorando de forma continua. Consequentemente, muitos alemães orientais passaram a sonhar em escapar da opressão e pobreza comunista. E, em toda a Alemanha, quase um milhão assim o fez, entre 1950 e 53. Em Berlim, cada vez mais, as pessoas continuavam fugindo para o lado ocidental ...

Por conta de toda essa debandada, os comunistas tiveram uma ideia...

No começo de 1961, surgiram boatos sobre uma grande obra em Berlim Oriental, todavia os ocidentais, apesar de desconfiados, não conseguiram descobrir do que se tratava. E, para a surpresa de todos, no dia 12 de agosto, o Conselho de Ministros da Alemanha Oriental decidiu usar as forças armadas para fechar as fronteiras e instalar gradeamentos. Durante a operação, na madrugada de 13 de agosto de 1961, os militares bloquearam as conexões de trânsito para Berlim Ocidental. Tinha inicio a construção do Muro.




A reação dos aliados ocidentais foi débil e só veio 72 horas depois, sob a forma de um protesto oficial à Moscou. Moscou, em resposta, apenas garantiu que a ação não afetaria Berlim Ocidental.

  • John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, disse: “A solução não é muito bonita, mas mil vezes melhor do que uma guerra”; 
  • Harold Macmillan, primeiro-ministro britânico, disse: “Os alemães orientais param o fluxo de refugiados e desculpam-se com uma cortina de ferro ainda mais densa. Isto não é ilegal.”

Sim, eles “lavaram as mãos”. Ainda, que afim de evitar-se um mal maior.


O Berliner Mauer possuía 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes metálicas eletrificadas com alarme, e 255 pistas de corrida para ferozes cães de guarda. Ademais, ele era patrulhado por militares da Alemanha Oriental que tinham ordens (a Schießbefehl ou "Ordem 101") de atirar e matar os que tentassem escapar.

Estrutura do Muro de Berlim nos anos 1980

O Muro tornou-se simbólico, pois além de dividir a cidade de Berlim ao meio, simbolizava a divisão do mundo em dois blocos socioeconômico e culturalmente distintos. De um lado o liberalismo, de outro a opressão comunista.


Existiam apenas oito passagens de fronteira entre Berlim Oriental e Ocidental e, para passar, era necessário permissão. Essa quase nunca vinha, o que gerou a separação de dezenas de milhares de famílias berlinenses. Muita gente morreu tentando escapar, sobretudo nos anos iniciais. Tinham as “mortes convencionais”, ou seja a tiros durante a corrida. Houve, ainda, as pessoas que foram baleadas quando tentavam escapar, penduradas em cordas, desde janelas de apartamentos localizados ao lado do muro. Ocorreram, também, quedas em balões de gás de fabricação caseira, e muito mais. Ainda assim, nos 28 anos da sua existência, mais de 5 mil indivíduos conseguiram escapar.


Inicialmente, os berlinenses se incomodavam muito com o Muro, e se preocupavam com seus amigos e parentes que viviam do outro lado. Mas, com o passar do tempo e com a mudança das gerações, os berlinenses orientais foram sendo ao poucos esquecidos. Cada um vivia a sua vida do seu lado do Muro. Isso, apesar da Guerra Fria continuar no mundo e das tensões não serem poucas...


As relações entre os dois Estados alemães também mantiveram-se tensas, até a política de aproximação com os países comunistas da Europa Oriental promovida pelo Chanceler ocidental Willy Brandt (Ostpolitik), nos anos 70. Seu lema era "Dois Estados alemães dentro de uma nação alemã". O relacionamento entre os dois países melhorou e, em setembro de 1973, as duas Alemanhas tornaram-se membros da ONU.

Durante o verão de 1989, mudanças políticas ocorridas na Alemanha Oriental e na União Soviética mudaram a historia... Alemães orientais começaram a emigrar em grande número para o lado ocidental, via Hungria, quando o governo húngaro decidiu abrir suas fronteiras. A emigração e manifestações em massa em diversas cidades pressionaram o governo da Alemanha Oriental por mudança, o que levou Erich Honecker a renunciar. Em 9 de novembro de 1989, finalmente as autoridades alemãs orientais surpreenderam o mundo ao permitir que seus cidadãos cruzassem o Muro de Berlim. O MURO CAIU!!



Com a enorme participação de Ronald Reagan, em todo o processo, chegou-se finalmente a reunificação da Alemanha, em 3 de outubro de 1990.


Em seu discurso histórico no Portão de Brandemburgo em comemoração ao 750º aniversário de Berlim, em 12 de junho de 1987, Ronald Reagan desafiou Mikhail Gorbachev, então Secretário Geral do Partido Comunista da União Soviética, a derrubar o Muro como um símbolo da crescente liberdade no Bloco do Leste.



"Mr. Gorbachev, tear down this wall!" (assistam, é de arrepiar!)


Tudo isso, e muito mais, aprendemos, e apreendemos nas atrações abaixo:

Black Box Kalter Krieg (Caixa-Preta da Guerra Fria)

Se você quiser conhecer a historia da Guerra Fria e só puder ir a um lugar, vá a esse. A exposição da BlackBox Kalter Krieg documenta “tim por tim” todo o período da Guerra Fria. Uma verdadeira aula de história... E, não deixem de reparar, logo no inicio, no discurso de Churchill, ainda em 1946, quando ele já mencionava o termo “Cortina de Ferro”. Endereço: Friedrichstraße 47. Horário: diariamente das 10 às 18h.




















Checkpoint Charlie

Checkpoint Charlie foi o nome dado pelos Aliados a um posto militar, localizado na área americana de Berlim, entre a Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental durante a Guerra Fria. Havia dois outros postos militares localizados na direção ocidental da Autobahn: o Checkpoint Alpha, em Helmstedt, e o Checkpoint Bravo em Dreilinden, no sudoeste de Wannsee. Cada nome indicando uma letra do alfabeto (Alpha a letra A, Bravo a letra B e Charlie a letra C) de acordo com o alfabeto fonético da OTAN. Então, é isso: Charlie não era uma pessoa.

Ele era um simples posto militar de checagem por onde exclusivamente estrangeiros e autoridades passavam de um lado para o outro da cidade. Como as autoridades americanas não imaginaram que aquela divisão fosse perdurar por 28 anos, nunca construíram ali prédios permanentes. Havia, no local, apenas cabines de madeira.


O fato é que esse posto tornou-se um símbolo da Guerra Fria, representando a separação do leste e oeste, sendo para alguns alemães orientais uma estrada para a liberdade. Até hoje, ele frequentemente é exibido em filmes e livros, tais como: “Goodbye Lenin!” (2003) e “Bridge of spies” de Steven Spielberg (2015).


Após a reunificação, uma reprodução das cabines de madeira foi recolocada no local onde ficava a cabine original e, dessa forma, ele virou um dos pontos turísticos mais visitados da cidade. Há “guardas” de plantão na cabine com quem se podem tirar fotografias e, para melhorar, no local o seu passaporte pode ser carimbado. Tudo de graça. Além disso, é possível se ver, for free, uma exposição fotográfica no cruzamento da Friedrichstrasse com a Zimmerstrasse.


Claro, que nada nesta área é original. Tudo é reconstrução. E, atenção: há muitos batedores de carteira nesta região!






A exposição















Na Crise de outubro 1961, os tanques de J.F. Kennedy e Nikita Khrushchev ficaram “cara a cara” neste ponto. Tenso! Durante mais de 15 horas, o mundo pensou que seria o inicio da Terceira Guerra Mundial.






Museu Checkpoint Charlie (Mauermuseum – Museum Haus am Checkpoint Charlie)

Durante a Guerra Fria, o prédio localizado no checkpoint servia como um ponto de encontro para pessoas que queriam ajudar nas fugas do lado soviético. Como forma de agradecimento, os desertores passaram a doar alguns objetos pessoais para o local, que com o tempo foi aumentado, o que gerou a formação do Museu Checkpoint Charlie. Nele, se contam através de fotos e murais a história do Muro, os eventos relevantes que aconteceram ao longo dos anos de sua existência e os inúmeros casos de fuga. Endereço: Friedrichstrasse 43-45. Horário: diariamente das 9 às 22h. Ingresso: € 14,50.








Memorial do Muro de Berlim (Gedenkstaette Berliner Mauer)

O Muro passava pela Bernauer Straße, e atualmente ao longo dela há diversas informações sobre a sua história e tristes videos das fugas que ali se deram.









A queda


No número 111, se encontra o Gedenkstaette Berliner Mauer. Ele foi aberto em 1998, e o objetivo dos organizadores era lembrar-nos da história do Muro (da construção à queda), da divisão das famílias e amigos que viveram naquela Berlim, e também das muitas mortes que ocorreram na DDR. O complexo é formado pelo Centro de Documentação do Muro de Berlim, a Capela da Reconciliação, um trecho de 60 metros do Muro original e um Centro de Visitantes. Horário: de terça a domingo, das 9:30 às 19h, nos meses de abril a outubro; das 9:30 às 18h, nos meses de novembro a março. As áreas abertas do memorial são acessíveis a toda hora, o ano inteiro. Como Chegar: S-Bahn - Linhas S1, S2, S25, estação Nordbahnhof/U-Bahn - Linha U8, estação  Bernauer Str./Bonde Linha M10, parada Gedenkstätte Berliner Mauer. Entrada grátis. 














Imperdível para quem quer conhecer como se vivia na na Alemanha comunista, a DDR (Deutsche Demokratische Republik). O legal é que partes do acervo são frutos de doações de pessoas que moraram na antiga Alemanha Oriental. No museu, há diversas áreas, como: guerrilha, trabalho, férias, moda, esportes. cultura, compras para cozinhar, etc. Na verdade, há diversas fotos, documentos e utensílios daquela época. Você vai abrindo gavetas e se instruindo sobre os assuntos... Um deleite, para quem, como eu, era criança nos anos 70-80. Tudo muito legal, mas na minha opinião, os destaques são: um Trabi, que se pode pilotar; e a réplica de um típico apartamento da DDR, com quarto, sala, cozinha, banheiro e ate elevador. Endereço: Karl-Liebknecht-Strasse 1. Horário: diariamente das 10 às 20h, e aos domingos até as 22h. Entrada: 5,50 euros.




A prisão




O apartamento





Alltag in der DDR (O dia a dia na DDR)

Esse museu também retrata a vida na DDR. E, apesar de ser menor que o Museu DDR, ele é mais original. Endereço: Knaackstraße 97. Abre de terça a domingo das 10-18h; nas quintas, fecha às 20h. A entrada é grátis.

THE WALL - asisi Panorama Berlin


A grande atração aqui é um enorme panorama, criado por Yadegar Asisi, de 270 graus que retrata o Muro que passava na Friedrichstraße, e como era a vida em ambos os lados. Há ainda uma pequena exposição sobre o assunto. Todos os detalhes neste post. Endereço: Friedrichstraße 205. Horário: diariamente das 10-18h. Entrada: 10 euros, associada a entrada na BlackBox Kalter Krieg.









  





Esse museu já foi citado (domingo passado) e possui no seu subsolo um bunker da Guerra Fria, que serviria de abrigo em caso de um ataque nuclear. Endereço: Kurfürstendamm 207-208.

Museu de História Alemã (Deutsches Historisches Museum)


Também já citado no domingo passado. Esse museu tem uma área dedicada a Guerra Fria. Endereço: Unter den Linden 2. Horário: diariamente, das 10 às 18h. Ingresso: 8 euros.






Tränenpalast (Palácio das Lágrimas)

Trata-se de um pavilhão de vidro que ficava exatamente na fronteira entre as “duas Berlins”. Em seu interior há uma exposição que mostra como era o dia a dia dos moradores que passavam pela fronteira. Endereço: Reichstagufer 17. Horário: de segunda a sexta-feira, das 9 às 19h; aos sábados e domingos, das 10 às 18h. Entrada grátis.


Berliner Unterwelten, uma atração ainda pouco conhecida de Berlim, é uma empresa que oferece diversos tipos de tours em bunkers, túneis e esconderijos usados tanto na Segunda Guerra Mundial, como durante a Guerra Fria. No post de domingo passado, já falei sobre ele. Para saber mais sobre o Muro, o tour recomendado é o "Tour M – Under the Berlin Wall". Esse tour dura duas horas, e há explicações sobre a divisão de Berlim e sobre a construção do Muro. O alvo é que os visitantes possam perceber como a população local, à época, lidou com o Muro e, ainda, como alguns conseguiram transpô-lo e escapar para o oeste. A visita começa em um bunker onde se explica como o sistema de esgotos foi usado nas fugas. Mais tarde, se vai para a Bernauer Strasse e se visita o túnel 57 (reconstrução), que foi o túnel mais famosos da Guerra Fria, já que por ele escaparam o maior numero de berlinenses do leste (57, daí a designação), em apenas duas noites. Ele não é o original, visto que uma vez que tais tuneis eram descobertos, eles eram rapidamente destruídos pelos polícias da RDA.


Estações fantasmas do metrô


Depois do fim da II GM, o sistema de metrô da cidade ficou a cargo da governo de Berlim Ocidental, e haviam linhas (U6 e U8) que saíam de Berlim Ocidental, entravam na Berlim Oriental e voltavam para o setor ocidental. Depois de 1961 e da construção do Muro, as estações do lado oriental foram muradas por dentro para impedir a livre circulação das pessoas. Surgiram assim as chamadas “estações fantasma”, lugares onde o metrô não parava. Estranho entrar na "Cortina Ferro" dessa forma, não? As estação de Nordbahnhof e a de Bernauer Strasse eram duas destas, e atualmente elas podem ser visitadas. Dentro delas, há exposições fotográficas e mapas que explicam esse processo, no minimo, curioso.


DDR-Wachturm (Torre de Vigilância do Muro de Berlim)


Uma das torres de vigilância restantes do Muro de Berlim, pode ainda hoje ser vista nas proximidades da Potsdamer Platz. Você pode ir lá fotografá-la e ate subir nela. Endereço: Erna-Berger-Straße. Horário: de terça a domingo, das 11 às 16 horas. Entrada: 3,50 euros.


No mapa:





Em alguns desses lugares há pedaços remanescentes do Muro de Berlim, mas esse será o assunto do próximo post.

Até lá!!

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