Visitando Auschwitz, o maior símbolo do Holocausto


Quando nós pensamos em viajar, pensamos em nos divertir, comer e beber bem, viver aventuras, e conhecer novas culturas. Entretanto, tenho lhes mostrado nos posts dos últimos domingos, que viajar é também aprender, e apreender, dados históricos. É viver emoções fortes com as histórias dos nossos antepassados. É entender a angústia, a dor, a perda e o desespero humano. É lembra que o homem é capaz de ser bestial. É estar ciente de atrocidades que não devem nunca se repetirem.


E, se viajar é tudo isso, há um lugar no mundo que todos devem conhecer... esse lugar é Auschwitz. Auschwitz, onde devemos entrar em honra aos que de lá nunca saíram.


Auschwitz será o tema deste post. Então, vamos combinar assim: tentarei descrever a visita de forma mais factual possível. No final deste post, falarei um pouco sobre as minhas impressões.



Auschwitz foi o nome dado a um enorme complexo de campos de concentração, operados pelo Terceiro Reich, localizados no sul da Polônia, em áreas que foram anexadas pela Alemanha Nazista.

Na primavera de 1940, o Reichsführer-SS Heinrich Himmler ordenou a sua construção, visto que os nazistas detectaram que as prisões em massa de judeus por toda a Europa ocupada excediam amplamente a capacidade das prisões convencionais até então existentes. Auschwitz foi o maior dos campos de concentração nazistas e consistia de: Auschwitz I (Stammlager, campo principal e centro administrativo do complexo); Auschwitz II–Birkenau (campo de extermínio e lugar construído para a Solução Final dos judeus), Auschwitz III–Monowitz (campo de trabalho forçado), e mais 45 campos satélites.

Para ser exata, Auschwitz não era o nome do complexo, e sim o nome alemão para a cidade polonesa de Oswiecim, em volta da qual os campos se localizavam. Oswiecim teve um passado bastante atribulado, que incluiu batalhas sangrentas entre as potências da Europa Central e a Rússia, com as sortes indo e vindo entre Rússia, Prússia e o Império Austro-Húngaro... até que chegou a este horrendo capítulo da história.

A visita:

Auschwitz I

Em junho de 1940, esse primeiro campo foi concluído. Possuindo, inicialmente, vinte edifícios (14 térreos e 06 com um andar) e dois blocos administrativos, onde ficava o escritório do Comandante e dos oficiais nazistas, Auschwitz I recebia, à época, os prisioneiros políticos poloneses. Aos poucos, chegaram também os dissidentes, intelectuais e membros da resistência poloca. Em março de 1941, ele tinha 10.900 prisioneiros, a maioria dos quais poloneses. Entre os anos de 1941 e 42, foram construídos, pelos prisioneiros, mais um andar nos prédios térreos, uma cozinha, um armazém e barracões de madeira entre essas estruturas.

Na visita guiada, nós vamos andando por entre os edifícios cercados de torres de guarita e arames farpados. Alguns desses chamados "blocos" estão fechados, em outros, temos acesso.

A entrada

chega a ser irônica essa frase em em ferro forjado "O trabalho liberta", já que aqui havia tudo, menos liberdade

uma referencia à Orquestra Feminina de Auschwitz ou Orquestra
de Meninas de Auschwitz




Essa orquestra foi criada em junho de 1943 por uma professora de música polonesa, Zofia Czajkowska, por ordem da SS. Ela tocava nos portões do campo quando os grupos de prisioneiros saíam para trabalhar e quando voltavam. Durante os últimos momentos do Holocausto, quando as deportações em massa de judeus da Europa Oriental ocorriam e um grande número de judeus que chegava ao campo era enviado diretamente às câmaras de gás, a orquestra era obrigada a tocar para acalmar os espíritos dos condenados. A música preservava a ilusão de que os prisioneiros seriam transportados para o Leste e permitiam à SS matar com mais eficiência e rapidez.

Logo no incio do tour, conhecemos o Bloco 4, onde estão expostos mapas, fotos do campo em operação, cópias de registros dos prisioneiros, maquetes das câmaras de gás e latas de Zyklon B, o inseticida que era utilizado nas câmaras para provocar a morte. Depois, entramos em uma parte chocante onde ficam expostos os cabelos das vítimas, usados na época para forrar os casacos dos soldados e serem vendidos. Em respeito às vítimas, não se pode fotografar esta sala.

















Zyklon B

No Bloco 5, podemos ver os pertences das vitimas, como: malas, sapatos, óculos, escovas de dente, utensílios de cozinha, e até mesmo prótese.


óculos



No Bloco 6, se compreende como os prisioneiros viviam no campo. Aqui, é explicado como funcionava o procedimento de registro, o recebimento de número de identificação e classificação das vitimas em diferentes categorias de prisioneiro. Essas categorias eram distinguidas por marcas especiais em suas roupas: verde para os criminosos comuns, vermelha para os presos políticos, e amarela para os judeus. Somos, depois, lembrados que os criminosos comuns alemães, geralmente, eram selecionados, pela SS, como supervisores (os chamados kapos) dos outros internos. Apesar de envolvidos em várias atrocidades em Auschwitz, apenas dois desses “kapos” foram julgados posteriormente por seus comportamentos individuais. A maioria escapou sob a alegação de não ter tido outra escolha senão agir como agiram.











No campo, todos os prisioneiros tinham que trabalhar nas fábricas de armas do complexo, exceto aos domingos, dia reservado para limpeza e banho. As duras condições do trabalho, combinadas à falta de comida e higiene, levaram a uma mortalidade maciça. Entre os presos, os que mais sofriam eram os judeus e os soviéticos. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos apenas algumas centenas sobreviveram aos cinco primeiros meses.

Ainda no bloco 6, passamos por um longo e estreito corredor com as paredes cheias de fotografias dos prisioneiros.




Após a libertação, algumas pessoas estavam tão sequelada que foram objetos de estudos médicos. Muitas não sobreviveram...




Escultura representado os prisioneiros esfomeados








As fotos tem as datas de chegada ao campo e da saída, vivos ou mortos. É assustador como muitos morreram poucos meses/dias após serem admitidos.




Essa parte da visita é dolorosamente realística.










As crianças que foram salvas quando as tropas aliadas chegaram ao campo.




No Bloco 7, visitamos as instalações onde os prisioneiros dormiam e viviam.

















O bloco 10, que não pode ser visitado por dentro, era onde se realizavam as "experiencias médicas".




Mais a frente, chegamos ao Bloco 11, conhecido como Bloco do Terror. Ele tinha várias funções, mas a principal era servir como prisão para àqueles sob investigação da polícia nazista por terem participado de algum movimento de resistência ou terem tentando fugir do campo. Alguns prisioneiros eram obrigados a passar noites seguidas nas "celas verticais", com cerca de 1,5 m² e habitada por quatro pessoas ao mesmo tempo. Eles “dormiam” de pé e no dia seguinte, ainda, tinham que participar dos trabalhos forçados nas fábricas. No porão do bloco ficavam as "celas da fome", onde os aprisionados não recebiam nem comida, nem água... até morrerem. Havia, também, as "celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas. Os prisioneiros colocados nestas celas iam sufocando gradualmente à medida que o oxigênio se acabava.





Foi no subterrâneo do Bloco 11 que os testes com Zyklon B foram iniciados. E, no seu jardim, ficava a chamada Parede da Morte, onde se executavam os prisioneiros políticos poloneses e os membros da resistência.







19 de julho de 1943, a maior execução publica do campo.




Seguimos então em direção a câmara de gás. Auschwitz I possuiu quatro delas, no entanto, hoje, essa é única que não foi destruída. Ela comportava cerca de 700 pessoas simultaneamente. O crematório ficava na sala ao lado, e podemos ver, ainda, enormes pilhas dos cilindros de gás usados.

























Auschwitz II-Birkenau

Auschwitz I começou a receber cada vez mais prisioneiros, de forma que a partir de outubro de 1941, deu-se inicio a construção do campo Auschwitz II- Birkenau, que fica a 3km de distância. "Birkenau", a tradução alemã para Brzezinka (floresta de bétulas), fazia referencia a uma pequena vila polonesa que foi destruída para que o campo pudesse ser construído. Nele foram montadas dezenas de galpões de madeira aonde judeus, ciganos, homossexuais e os inimigos do regime, vindos em trens de carga de toda a Europa ocupada, viviam. Viviam, enquanto aguardavam o fim nas câmaras de gás. Muitos definharam de fome, frio e exaustão. Pouco, muitos poucos, sobreviveram para relatar suas tenebrosas memórias.


a clássica imagem dos trens chegando ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau que faz parte do imaginário de milhões de pessoas


Depois da guerra, o primeiro comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, testemunhou, no Julgamento de Nuremberg, que mais de três milhões de pessoas haviam morrido ali, 2.500.000 nas câmaras de gás e 500.000 de fome e doenças. Atualmente, os números mais aceitos são em torno de 1,3 milhão, sendo 90% deles de judeus, 150 mil poloneses, 23 mil ciganos romenos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos, cerca de 400 Testemunhas de Jeová e outras dezenas de milhares de pessoas de diversas nacionalidades.



Birkenau é enorme, e já na entrada ao olhar para os trilhos por onde passaram os “trens da solução final para a questão judaica” se tem uma enxurrada de emoções!





O campo foi construído por ordem direta, e expressa, de Heinrich Himmler. E, inicialmente, nele havia duas câmaras de gás: "A Pequena Casa Vermelha" e a "A Pequena Casa Branca”. As primeiras execuções por gás, usando Zyklon-B, ocorreram em Auschwitz em setembro de 1941. Mais tarde novos crematórios foram construídos, e em junho de 1943 todos estavam em plena operação.



Quando os nazistas perceberam que a guerra estava perdida, e que os aliados estavam a caminho, começaram destruir as evidências das atrocidades que foram cometidas no local. Detonaram as câmaras de gás, os crematórios e alguns prédios, queimaram documentos e evacuaram todos os prisioneiros que conseguiam andar para o interior da Alemanha. Os que não conseguiam foram liberados pelo Exército Vermelho em 27/01/1945.



Por isso, hoje, há pouco para se ver, e muito a se sentir, na visita a esse campo. Vemos as ruínas dos crematórios e um monumento que foi erguido em homenagem aos judeus mortos na guerra. Depois, nos encaminhamos em direção aos barracões de madeira, aonde as pessoas aguardavam a chegada da morte. Neles não havia aquecimento, não tinha piso, o chão era de terra e todo desnivelado.





As ruínas das câmaras de gás




















Muitos deles estão fechados, mas vamos até a ala feminina do campo, que era separada da masculina pela linha de trem. Aí, entramos em um deles. Pude, então, observar as camas, tão reproduzidas em filmes. Elas eram divididas em três níveis, sendo que dormiam cerca de seis pessoas em cada um deles. Sobreviventes relatam que durante a noite as camas até pulavam, de tantos ratos e pulgas que tinham lá. Sem falar do frio que na época era mais intenso que atualmente, chegando-se a menos 20-25 graus...









Informações úteis:

Horários de funcionamento: dezembro, das 8 às 14h; janeiro e novembro, das 8 às 15h; fevereiro, das 8 às 16h. março e outubro, das 8 às 17h. Abril, maio e setembro, das 8 às 18h; junho, julho e agosto, das 8 às 19.

Duração visita: Há tours guiados individuais e em grupo (mínimo de 10 pessoas). As visitas tem duração de 3:30h (curta) ou 6h (longa, que acho só vale para profissionais). A visita não é permitida aos menores de 14 anos.

Entrada: grátis para entrar no campo de concentração, menos entre março e outubro das 10 às 15h, quando só é possível acessar o local com tour guiado, que é pago. O preço do tours varia de acordo com o tipo de visita e é absolutamente necessário reservar os ingressos pela internet com ao menos dois meses de antecedência. Os grupos guiados saem de tempos em tempos, com tradução em inglês, espanhol, francês e italiano. Os tours com guia em inglês, mais comuns, saem a cada meia hora.

Como chegar partindo da Cracóvia:




De trem

Existem ligações ferroviárias diretas para a cidade de Oswiecim que partem da Estação Ferroviária Principal de Cracóvia a cada uma ou duas horas, com uma viagem padrão de 1 hora e 40 minutos. Preço: 8,50 ztolys. A dica é comprar o bilhete só de ida para ficar com o horário mais flexível. Da estação de Oswiecim até o Museu são cerca de 20 minutos andando ou 5-10 minutos com o ônibus que passa em frente à estação (pegue o ônibus 24 ou 25, e desça na parada “Muzeum”). Veja o passo a passo do caminho a pé, neste post





As ligações de ônibus para Auschwitz/Oswiecim saem da Dworzec MDA (Estação MDA), situada na rua Bosacka, atrás da principal estação ferroviária de Cracóvia. Existem quatro transportadoras privadas que oferecem o transporte para Auschwitz, em ônibus de tamanho padrão ou mini-ônibus: G.T. Trans, Lajkonik, Marek Lewański e Przewoz Osób JS. Os ônibus partem a intervalos de 20-40 minutos. A viagem dura cerca de uma hora e trinta minutos, e se desembarca em uma das três paradas localizadas nas proximidades do Campo de Concentração de Auschwitz: Muzeum Auschwitz (a mais próxima e que serve somente a rota da companhia de Lajkonik), Wiezniow Oswiecimia (Linha 2 de Marek Lewanski e GT Trans transportadoras, a poucos minutos a pé do portão do acampamento) ou na parada de ônibus Oswiecim Lodowisko (a 5 km do acampamento).


Como ir até Birkenau: Birkenau fica a cerca de 3Km de Auscwitz I e há um ônibus gratuito (de abril a outubro) que faz o trajeto desde Auschwitz I-Birkenau. No inverno, o jeito é pegar um táxi. Há muitos disponíveis no estacionamento.

Minhas impressões:


1. Acho que não vale à pena ir de transporte público, principalmente no inverno. Deixe de ser pão-duro e feche um tour. Eu escolhi o do Escritório de Turismo da cidade, o Discover Cracow. Fomos em uma van que me pegou/deixou no hotel. A viagem foi bem confortável, e eles passaram um filme introdutório sobre o complexo. Faça a sua reserva previamente no site. Eu optei pelo tour em espanhol, e quando chegamos lá, já recebi o horário de entrada no complexo e um adesivo de identificação do meu grupo.

2. Auschwitz I fica lotado. Há uma área central com livraria, banheiros e um guarda-volumes (não se pode entrar com bolsas grandes e mochilas). Existe um restaurante, mas dificilmente você terá tempo para almoçar. Todavia, relaxe, há vários lugares que vendem lanches e bebidas no entorno do estacionamento. Apesar disso, o recomendado é que levem o seu próprio lanche.

3. Recomendo muito que visitem Auschwitz no inverno. É verdadeiramente doloroso caminhar ao ar livre naquela "friaca", mas é mais realístico. Digo isso, porque, geralmente os campos são dessa forma retratados nos filmes. E, também, porque só assim podemos entender o que devia ser viver ali com roupas e calçados inapropriados.


entorno do estacionamento

4. As pessoas que nos guiam no complexo são funcionários do próprio local e são muito conhecedores de todos os detalhes históricos. Então, acho que não vale a pena entrar no campo sem guias. Por outro lado, o inconveniente é que a visita em Auscwitz I  é feita na maior correria, o que tem vários problemas, como a dificuldade de tirar boas fotografias. Todavia, a falta de tempo, nos impossibilita de vivenciar com maior profundidade todas aquelas atrocidades cometidas. Quero dizer, não achei essa parte da visita tão emocionalmente perturbadora, já que todos nós já vimos muitos filmes e fotos sobre esses eventos.

5. Auschwitz II-Birkenau é uma enorme área aberta, então é preciso ir muito agasalhado e estar preparado para caminhar bastante. Aqui, a visita é feita com um novo guia do complexo, e como não há entra-e-sais de edifícios, a ficha cai. De súbito, se percebe que estamos ali. É verdadeiramente aterrador... esteja preparado!

Hoje, fico por aqui...

#WeRemember (27/01/1945-27/01/2019)

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